O delírio do controle
Sob a Lua nova • Hemisfério Sul • 19.12.2025
Tenho dedicado os últimos 24 anos da minha vida a ouvir pessoas.
Estar como professor é, antes de tudo, estar como ouvinte. Sempre estive atento ao que os outros tinham a dizer, mas, nos últimos anos, algo mudou: passei a observar as pessoas com mais cuidado.
Pessoas do meu círculo de convivência, pessoas com quem trabalho, pessoas que cruzam meu caminho. E algo se repete, quase como um sintoma do nosso tempo: uma necessidade constante de controlar tudo.
Controlar o tempo.
Controlar os resultados.
Controlar o que o outro vai dizer, o que o outro deve fazer, como as coisas precisam acontecer.
Vejo muita gente exausta tentando manter tudo sob domínio e, ao mesmo tempo, cada vez mais distante de si mesma. O controle, que promete segurança, parece produzir o efeito contrário: afasta os corpos, endurece as relações, empobrece as conversas, tira o sorriso das convivências. Fala-se muito. Escuta-se pouco.
Confesso: acho isso profundamente chato.
E, mais do que isso, entediante, bobo e triste.
E, acima de tudo, um delírio.
Porque a vida, quando vira apenas um exercício de controle, perde nuance, perde surpresa, perde presença. Tudo vira performance. Tudo precisa ser corrigido. Nada nunca está bom o suficiente. Faz-se um ajuste fino desnecessário em coisas que não pedem ajuste algum, como se viver fosse cumprir um roteiro previamente aprovado.
No fundo, percebo que o medo das pessoas que tentam controlar tudo de forma delirante é o medo do julgamento. E, ao expor esse controle, muitas vezes sem perceber, acabam revelando sua maior fragilidade: a dificuldade de lidar com o olhar do outro.
As plantas me ajudam a enxergar isso com mais clareza.
E também me ajudam a conduzir uma vida mais tranquila, sem essa necessidade constante de controle.
Elas seguem outro caminho.
Não controlam seus movimentos.
Não tentam prever tudo.
Não operam a partir da rigidez.
Vivem em estado de atenção contínua. Respondem ao que está disponível: luz, água, vento, solo, temperatura. Ajustam-se. Recuam. Avançam. Persistem.
Há fluxo, não comando.
Talvez o grande delírio do nosso tempo seja acreditar que controlar é sinônimo de cuidado. Quando, na verdade, o excesso de controle revela uma desconexão profunda: da natureza, do corpo, dos ritmos, da escuta.
As plantas nos lembram, silenciosamente, que viver não é dominar.
É se relacionar.
Para elas, não existe vida sem relações.
Assim como não existem relações sem escuta, sem presença, sem perceber o outro.
Fomos educados a acreditar que planejar é prever.
Que segurança nasce da antecipação.
Que só vale agir quando sabemos exatamente onde vamos chegar.
Mas basta observar uma planta crescendo para perceber que a vida não funciona assim.
As plantas crescem estabelecendo relações.
Dialogam continuamente com o ambiente.
Orientam-se por sinais, por respostas sutis do entorno, não por ordens.
Nada é totalmente estável na vida de um vegetal (nem na nossa).
E, ainda assim, há continuidade.
O problema não é planejar.
O problema é confundir planejamento com rigidez.
Ao longo do tempo, construímos cidades, rotinas e modos de vida que tentam eliminar o imprevisto. Canalizamos rios, endurecemos solos, iluminamos a noite, ocupamos cada intervalo com tarefa, ruído ou estímulo.
E, nesse esforço contínuo de controle, fomos nos afastando dos fluxos da vida.
As plantas seguem ali, mesmo assim.
Aparecem onde não foram convidadas.
Crescem nas frestas, nos vasinhos, por toda parte.
Nos lembram, com insistência, que a vida sempre encontra passagem.
As plantas não estão no controle.
Mas também não são passivas.
Elas respondem com uma certa inteligência distribuída.
Escutam o ambiente, de um jeito diferente do nosso, mas escutam.
Mudam de estratégia quando necessário.
Talvez seja isso que mais nos falte hoje: a capacidade de escutar antes de agir.
Controlamos porque não sabemos esperar.
Controlamos porque temos medo do vazio, e talvez porque temos medo de ficar conosco mesmos.
Controlamos porque desaprendemos a confiar nos processos.
As plantas vivem exatamente no território que evitamos: o da incerteza.
E, ainda assim, seguem.
Talvez uma planta nos dissesse, com a paciência de quem já atravessou muitas estações: “Relaxa, cara! Você pode soltar um pouco. A vida continua.”
Lua nova
Esta edição chega sob a Lua nova, em 19 de dezembro de 2025, no céu do Hemisfério Sul.
É a fase de menor visibilidade do ciclo lunar. Não há luz refletida. Nada se mostra completamente.
A Lua nova nos lembra que nem todo começo é claro. Que há fases em que não enxergamos o próximo passo, e isso não significa estar perdido. Significa apenas que o processo ainda está acontecendo.
Dica de leitura
Entre uma tentativa de controle e outra, gosto de retornar aos livros que me lembram que a vida é maior do que nossos esquemas humanos.


Em Como ler uma árvore, de Tristan Gooley (Editora Olhares), o autor nos convida a observar as árvores como mapas vivos: cada galho, cada inclinação, cada marca no tronco conta uma história sobre o ambiente, o clima e o tempo. Um livro que ensina a ler o mundo com mais atenção, menos pressa e menos controle.
Leitoras e leitores desta newsletter têm 30% de desconto usando o cupom
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Almanaque das plantas (ed. 3)
No fim de um ano, talvez o gesto mais honesto para sair do controle seja o da escuta.
Pratique a escuta ativa.
Não interrompa alguém enquanto fala.
Não antecipe respostas.
Deixe fluir.
Mas proponho também um outro tipo de escuta.
Se puder, escolha um momento em que o dia esteja mais silencioso.
Observe uma planta que cresceu fora do lugar esperado. Um mato na calçada. Uma planta espontânea. Algo que nasceu sem permissão.
Repare no que permitiu esse crescimento: Uma fresta. Um pouco de água. Luz suficiente.
Não houve controle. E muito menos planejamento. Houve condição.
Escreva para si a pergunta:
O que, em mim, precisa menos de controle e mais de escuta?
Não responda agora.
Deixe essa pergunta atravessar o fechamento do ano.
Escola de Botânica
Aproveito para te convidar a conhecer as atividades presenciais e on-line da Escola de Botânica, que em janeiro e fevereiro chegam cheias de encontros, cursos e experiências. Vamos nos encontrar em uma dessas ações para falar ainda mais da vida vegetal.
Te desejo boas festas e um excelente final de ano! E que em 2026 possamos estar ainda mais próximos das plantas e, quem sabe, mais próximos de nós mesmos.


